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Conversa com o tempo

Ufa! Estamos chegando ao final de mais um ano. A razão nos sinaliza que se trata apenas de uma mudança de número na folhinha, mas a emoção nos recorda a necessidade de um balanço. Débitos e créditos e o saldo para o início de uma nova etapa. Daí, o tempo, sempre ele, é régua a definir nossa passagem pela Terra na trilogia cronológica do passado, presente e futuro. E a nossa conversa então se inicia.

Ah, o passado. Ele é a sentença proferida que não nos permite correções ortográficas. Não dá para apagá-lo, modificá-lo, ou deletá-lo. Ele é que delata os erros e acertos de nossas escolhas, que estarão lá, indelevelmente gravadas em nossa memória. O passado vive a lembrar que está vivo em uma simples ruga, nas rusgas que a vida deixou. É o registro que, invariavelmente consultamos, mesmo que não tenhamos consciência. De repente, eis que surge das profundezas onde parecia inativo, e, reaparece na superfície, sólido, concreto, e se revela em um simples gesto nosso, uma pequena frase, um sorriso, mostrando que verdadeiramente permanece presente em nós. O passado não passa incólume. Ele deixa rastros, vestígios, marcas, zombando do presente e do futuro dizendo: Vocês não existem! Serão sempre simples conseqüências do que deixei. Heranças do que construí. Dizem que eu fui, mas verdadeiramente eu sou a realidade que pode ser mensurada, analisada, refletida, aprendida. Os outros, presente e futuro, são meras invenções sem produtos tangíveis, ilusões criadas para tentar apagar minhas pegadas e a minha real preponderância sobre o tempo.

Assim, por vezes, tentamos esquecer o passado e negar sua existência, nos abraçando ao presente.

Ah, o presente. Dizem que o melhor da vida é viver o presente, mas, como, se quando achamos que vamos aproveitá-lo, ele já passou? Se, ao identificarmos sua existência, ele já inexiste? O presente que nunca se deixa desembrulhar, que é constante movimento, e tem no gerúndio seu sinônimo. O presente, por sua vez, diz ao passado e ao futuro. Passado, você está morto. É mera página virada, estrada já percorrida que não permite retorno. E você, futuro, nem existe, está sempre na possibilidade e nunca sequer foi visto. E ambos são resultados de todas as minhas ações. Sem mim, nenhum de vocês existiria. Eu sou o agora, a vida em movimento, a possibilidade da transformação e da mudança. É só imaginar que se cada ser humano fizesse o melhor no meu tempo, ninguém gostaria de lhe esquecer, passado, e você, futuro, seria realmente aquela luz viva a esperar a minha chegada.
Mas como tentamos apagar o passado e o presente já passou, o futuro nos seduz.

Ah, o futuro. Estamos sempre a colocar nossas moedas em seu bolso. Na maioria das vezes, imaginamos que tudo será melhor quando ele chegar e lhe criamos outro nomes, como sonhos, projetos, ideais, esperanças. Ele nunca chega talvez pelo simples fato de nos impulsionar para a continuidade, a nos lembrar que não existe linha de chegada, pois todo momento é uma nova partida. O futuro, por sua vez, questiona o passado e o presente: Estou sempre à sua frente, passado, representando o que há de vir. Você deita sobre o que fez, eu estou sempre acordado e sou o único que representa verdadeiramente o tempo que nunca morre. E você, presente, tem inveja e vive querendo ser o que sou. Você é uma pequena cópia minha, o futuro imediato. Eu sou sem amarras, sem início e sem fim, sou o eterno. Sou o que nunca chega, embora todos anunciem a minha chegada.

Um novo ciclo está chegando e na régua do tempo, entre o passado, o presente e o futuro, vale recordar que não somos nós que passamos pelo tempo. Ele é que passa por nós. Assim, não é ele que traduz quem somos se crianças, jovens, adultos ou idosos. Somos nós que mostramos a ele verdadeiramente o que somos: seres imortais na indissolubilidade do cosmos.



Fonte: Wiliam Oliveira

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